Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

Um pouco da vida de José Afonso…


2 de Agosto de 1929 em Aveiro, nasce José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos. Filho de pai magistrado e de mãe professora. Neto de um republicano que esteve ligado a um movimento importante de renovação escolar. Seu avô Domingos José Cerqueira introduziu o culto da árvore nas escolas e criou uma segunda “cartilha” depois daquela de João de Deus. José Afonso tem uma infância escolar perturbada e violenta, devido a um professor que o castigava pendurando-o pelas orelhas, por ser distraído. África foi muito mais tarde rumo de Zeca Afonso, aquele que nos encantou com os seus poemas e cantigas, e a sua voz. Professor de História calcorreando vários colégios e escolas técnicas, de Alcobaça Aljustrel, passando por Lagos, Fuseta, Faro. Casa a primeira vez, tem dois filhos, e mais tarde divorcia-se e os filhos vão para África com os avós. Começa a dar aulas à noite em Coimbra e fica fascinado ao conhecer pessoas que mais tarde serão seus companheiros de luta. Militantes da LUAR, um deles assassinado mais tarde pela PIDE, o Matias. Conhece a segunda mulher, a Zélia, na Fuseta. Casa e mais tarde, vai ter com os filhos a Moçambique. O primeiro disco é editado quando está a viver em Faro. Influenciado pela campanha do general sem medo, como era apelidado Humberto Delgado, vai desenvolvendo algumas actividades isoladas e através das aulas vai “enviando os seus recados”. Amante da poesia vai cantando sem quaisquer intuitos comerciais ou mesmo artísticos. Compõe em 1960 a “Balada de Outono”. A vida académica leva-o a dar contributo ao movimento cantigueiro da altura. Carlos Candal advogado em Aveiro, encabeça a lista da AAC (Associação Académica de Coimbra) e Manuel Alegre, António Portugal e Adriano Correia de Oliveira, impulsionam a balada/trova que passa de uma mera alternativa estética à posição produção dominante, fixada quando da adesão no momento da “crise 62” e quando aparece a “Trova do vento que passa” que se transforma em hino do Movimento Associativo. Zeca junta-se a Rui Pato.
E vale a pena ouvi-lo, conhecer a sua poesia e a sua música, em discografia mediana, 14 álbuns que começam em “Baladas e Canções” de 1967 e terminam em “Como se fora seu filho” de 1983, onde se destacam “Cantares de Andarilho” de 1968, “Traz outro amigo também” de 1970, e talvez o mais conhecido e mais polémico “Cantigas do Maio” de 1971, e ainda “Eu vou ser como a toupeira” de 1972 e “Venham mais cinco” de 1973.
Para quem viveu, como eu, anos anteriores ao 25 de Abril é um artista obrigatório para ouvir e ter um espaço reservado de memória no nosso cérebro.

Citação de Zeca Afonso:

Faço música como quem faz um par de sapatos, isto é, tento alinhar sons e torná-los coerentes entre si, como quem faz um utensílio. E o mundo social da música não me seduz grandemente, como me seduzem os palcos e todo esse tipo de estruturas sobre que assenta uma canção. Seduz-me, sim, aquilo que posso fazer em torno da música: os contactos que estabeleço, os amigos que arranjo, esta “irmandade” progressista que se vai estabelecendo à medida que vamos correndo as terras, descobrindo que nessas terras vivem indivíduos que têm determinado tipo de preocupações…”.

“Morre” no dia 23 de Fevereiro de 1987, com 57 anos de idade. Vai fazer 21 anos. Que saudade Zeca...

Bibliografia:

Viriato Telles, Cadernos de Reportagem, Ano 1, Nº. 2, 1983, Relógio d’Água Editores Lda.

1 comentários:

Kahlix disse...

Meu caro amigo!
É com imenso prazer que (re)descubro o teu Blog.
Parabéns! Uma imagem que espelha bem a postura que te conhecemos há anos (se alguém tem dúvidas, isto é um elogio)!
Vou ficar agarrado, e só espero que não leves tanto tempo a publicar coisas como eu...
Felicidades, em tudo, e no blog também!